Deitada ali no chão, com um osso na boca, amarrada nos pulsos e nos tornozelos, ela era feliz. Todo líquido parecia sair do seu corpo. A baba na sua boca, o suor na sua testa e em seus suvacos, algumas gotas escorregando pelo seu prepúcio, os dedos dos pés brilhando. Olhos, que não desviavam dela, lhe traziam calor e calma. Deitada, ali no chão, não tinha que satisfazer as metas cada vez mais inalcanssáveis de Cláudio, seu chefe. Não precisava impressionar Gisele, sua orientadora de mestrado. Não precisava da aprovação de Marcos, seu marido. Apenas precisava não-ser, apagar o ego, ser uma boa garota. Não é a performance que cura suas feridas e suas angústias, é seu desejo, prontamente derramado, em jorros que parecem interminaveis, no chão da cozinha. Recebe um cafuné. A respiração tenta trazer de volta o ar, recebe seu pote de água, bebe, deita e ali mesmo dorme.