Sozinha. Olhou para um lado, olhou para o outro. Era uma rua deserta. Uma fábrica abandonada de um lado, um trilho de trem do outro. Caso andasse para frente, uma parede de prédios espelhados e condomínos prediais lhe esperava. Voltando para trás, a estação de trem. Era ela e apenas uma luz falhando. A primeira coisa que fez foi gritar. Clichê, pensou. Tirou a camisa e balançou os neoseios. Ok, nada demais. Tirou o restante da roupa, começou a bater no portão da fábrica, berrou, rolou no chão, subiu o muro dos trilhos e abriu os braços, um trem passou. Balançou o que tinha entre as pernas. Sentiu-se livre por alguns minutos. Vestiu a roupa e voltou a caminhar em direção ao emaranhado de prédios, tinha de passar por eles. Sentiu-os tão desertos quanto a fábrica abandonada. As pessoas viviam as vidas mais idiotas possíveis, pensou. Ela também vivia uma vida igual. "Não são 5 minutos de loucurinha que me diferenciam deles". Então decidiu tirar a roupa ali novamente, dançar em frente dos prédios. Ficou assim por vários minutos e nada aconteceu. Até que um carro saiu da garagem e um casal olhou para ela com nojo, enquanto o portão subia. Correu com toda força e saltou no carro. O homem pisou forte, ela escorregou e rolou pelo chão, sangrando nos joelhos. Sentou no chão, passou os dedos no sangue e colocou na boca. Nunca provou nada tão delicioso. Pegou sua roupa, segurou na sua mão e mancando andou até a avenida principal, olhou a porta do shopping, passou dois dedos no sangue que ainda escorria dos joelhos, pintou o rosto, largou as roupas e saiu correndo.